Bitcoin do Zero: Entendendo as Regras que Substituem a Confiança
Como o Bitcoin protege bilhões de dólares? Nesse post, você será capaz de explicar, com clareza, por que o Bitcoin não pode ser falsificado, derrubado ou proibido, mesmo sendo totalmente digital.
Por que o Bitcoin tem valor?
Neste artigo, você verá como o Bitcoin funciona sem bancos, intermediários ou lastro monetário. Mais do que conhecer o sistema, você compreenderá os princípios fundamentais que o sustentam. Não vamos nos perder em todos os detalhes técnicos, mas focar nas ideias centrais, aquelas que permitem refletir sobre o Bitcoin de forma independente.
Ao final da leitura, você não apenas saberá o que é o Bitcoin, mas por que ele funciona.
Eis o que abordaremos:
O que são os registros (analogia com o pôquer)
Propriedade e autenticidade (chaves e assinaturas)
Redes e escalabilidade (fofoca)
Ordenação e consenso (blocos)
Escassez e incentivos (mineração)
Resolução de conflitos e a camada social (forks, ataques)
Vamos começar.
O que são os registros (analogia com o pôquer)
Imagine que você e seus amigos estão sentados à mesa, prontos para jogar pôquer, mas não há fichas. Para resolver isso, você pega um pedaço de papel para cada jogador e começa a registrar as fichas de todos:
Aline começa com 100 fichas.
Bob começa com 100 fichas.
Charlie começa com 100 fichas.
Agora vamos jogar:
Alice aposta 5 fichas na primeira mão.
Bob iguala a aposta dela com 5 fichas.
Alice vence, então seu total sobe para 105, e o de Bob cai para 95.
…e assim o jogo continua.
* Para esta analogia, vamos supor que as anotações sejam perfeitas: ninguém esquece ou comete erros.
Um detalhe importante: você não é o único a tomar notas. Todos anotam cada ação simultaneamente.
Agora, imagine que Charlie tenta algo sorrateiro. Ele aposta 100 fichas em uma mão. Mas, ao verificar suas anotações, você vê que ele só tem 80 fichas restantes. Todos os outros veem a mesma coisa em seus registros. Como a ação não condiz com a realidade, todos concordam que Charlie está tentando trapacear — e simplesmente ignoram sua aposta.
É exatamente assim que o Bitcoin funciona. Os registros são a verdade. Qualquer informação que viole as regras é simplesmente ignorada. Essa é a principal diferença em relação às finanças tradicionais, como os bancos: não há uma autoridade impondo regras. No Bitcoin, as regras se impõem por si mesmas, porque todos verificam os mesmos registros de forma independente.
Em vez de fichas de pôquer, o sistema rastreia transferências (transações) de bitcoin. Cada participante tem sua cópia do registro. Veja como funciona:
Se Alice enviar 2 BTC para Bob, todos registrarão que o saldo de Alice diminuirá em 2, e o de Bob aumentará em 2.
Se alguém tenta enviar moedas que na verdade não tem, o sistema rejeita a transação, porque os registros de todos os outros dizem o contrário.
Se você tentar “escrever” um saldo maior para si mesmo, sua cópia do registro não corresponderá à de mais ninguém, então ninguém aceitará suas transações falsas.
Claro, não precisamos usar números inteiros, podemos transferir frações de até 8 dígitos (0,00000001 BTC) e não usamos literalmente caneta e papel. O “registro” reside em código de computador, um software especializado chamado “cliente Bitcoin” cuida de tudo isso automaticamente: registrando transações, verificando saldos e garantindo que todos concordem com o mesmo histórico, além de algumas outras funções complementares.
Este software é gratuito e de código aberto, o que significa que você pode baixá-lo, verificar seu código (suas regras), atestar sua lógica e participar da rede. Além disso, você pode pensar que tudo isso é uma quantidade considerável de dados, mas são apenas números e endereços (também um número), o que o torna bastante administrável. São 680 GB hoje (2025) e caberiam em qualquer computador comum ou até mesmo em alguns celulares.
Vamos abordar algumas das perguntas mais urgentes que você pode ter até este ponto.
Como obtenho Bitcoin?
Alguém precisa transferir para você. Na prática, a maioria das pessoas compra bitcoin de outras pessoas (lembre-se: você não precisa comprar quantias inteiras, pode comprar frações). Isso geralmente acontece por meio de serviços chamados exchanges — plataformas que conectam compradores e vendedores e garantem que as negociações sejam seguras para ambos os lados.
Por que o Bitcoin é valioso se é apenas digital?
Essa é uma pergunta frequente! A verdade é que muitas coisas que usamos como dinheiro não têm valor por si só. Moeda, por exemplo, é apenas papel e tinta. O que a torna valiosa é que todos concordam em tratá-la como dinheiro. O valor do Bitcoin é determinado exclusivamente pelo mercado, que está disposto a trocar outras moedas (e possivelmente bens e serviços) por ele. Espero que, ao final deste artigo, você também esteja disposto a atribuir a ele um valor real devido às suas propriedades.
Então todos os saldos de bitcoin são públicos?
Sim, mas não vinculado a nomes. O registro não usa identidades reais — ele usa endereços de carteira (como números de conta). Você pode criar uma carteira para receber Bitcoin. Embora todos possam ver saldos e transações, ninguém sabe automaticamente quem é dono de qual carteira. Existem serviços chamados “exploradores de blocos” que coletam os dados brutos do Bitcoin (transações, saldos, etc.) e os publicam online, para que qualquer pessoa possa pesquisar e rastrear facilmente todas as atividades da carteira.
Quem controla o sistema do Bitcoin?
Ninguém. Como você mesmo pode concluir, o Bitcoin é descentralizado, o que significa que não há uma única empresa, governo ou pessoa responsável. Em vez disso, é apenas um sistema de registro compartilhado — como nossas notas de pôquer — alimentado por milhares de computadores ao redor do mundo.
Quem criou o programa Bitcoin?
O Bitcoin foi introduzido em 2008 por alguém (ou um grupo de pessoas) sob o pseudônimo de Satoshi Nakamoto. Sua verdadeira identidade permanece desconhecida até hoje. Isso não é muito importante; você pode pesquisar essa curiosidade mais tarde, mas primeiro precisa entender como ele funciona.
Os governos podem proibir ou encerrar o Bitcoin?
Os governos podem dificultar o uso do Bitcoin, mas não podem fechá-lo completamente. Isso porque o Bitcoin não reside em um único computador, servidor ou empresa. Em vez disso, ele roda em milhares de computadores independentes ao redor do mundo. Mesmo que alguns países tentem bloqueá-lo, enquanto houver um único computador ainda executando o programa Bitcoin, a rede continua funcionando. Os governos podem regular como as pessoas usam o Bitcoin em seu país. Por exemplo, eles podem restringir as exchanges (as plataformas onde as pessoas trocam Bitcoin por dinheiro comum), obrigar as empresas a reportar transações ou estabelecer regras sobre impostos. Essas leis podem afetar a facilidade de comprar, vender ou gastar Bitcoin, mas não podem excluir sua existência.
Posso modificar o código do programa Bitcoin?
Sim. O software do Bitcoin é de código aberto, o que significa que qualquer pessoa pode visualizar, copiar ou alterar o código (mudar as regras). Mas aqui está o problema: só porque você modifica sua própria cópia não significa que o resto da rede seguirá suas regras. Semelhante à alteração do seu saldo, para que sua versão seja relevante, outros participantes (chamados nós) também teriam que adotar suas alterações. É assim que o sistema resiste a agentes mal-intencionados e mantém o consenso.
Propriedade e autenticidade (chaves e assinaturas)
Até aqui, explicamos o que o Bitcoin arquiva: um registro coletivo que todos podem verificar. Vamos voltar à nossa analogia do pôquer e torná-la mais realista. Desta vez, em vez de sentarmos à mesma mesa, todos estão jogando por meio de uma enorme chamada telefônica em grupo. Jogar dessa forma introduz novos desafios que precisamos superar.
Em uma ligação telefônica, alguém pode se passar por você e tentar fazer apostas ou movimentações em seu nome (lembre-se, você não sabe quem é quem, apenas os endereços das carteiras). O primeiro desafio é a personificação.
A solução é exigir uma assinatura digital. Pense nisso como uma senha que só você conhece. Cada carteira tem um código secreto (chamado de chave privada) que você usa para “assinar” uma transação, comprovando que você é o proprietário legítimo daquela conta.
Entretanto, ao contrário de uma senha de banco, não queremos ter uma lista centralizada controlando as senhas de todos — isso seria inseguro e iria contra a natureza aberta e pública do sistema. Em vez disso, o Bitcoin usa algo chamado criptografia de chave pública (um dos motivos pelos quais o Bitcoin é frequentemente chamado de cripto) .
A criptografia de chave pública depende de funções matemáticas unidirecionais e tem dois componentes:
Uma chave privada (sua senha secreta), que você nunca deve compartilhar, que você usa para assinar suas transações.
Uma chave pública (o número da sua conta), gerada matematicamente a partir da sua chave privada. Você pode compartilhá-la livremente, mas ninguém pode trabalhar de trás para frente para descobrir sua chave privada.
Juntos, esses dois componentes formam o que chamamos de carteira. Quando você assina uma transação com sua chave privada, outros podem verificá-la usando sua chave pública. Isso prova que a transação é válida — sem que ninguém saiba sua senha ou consiga alterar a mensagem (pois precisariam da sua chave privada para assiná-la novamente). Qualquer transação que não puder ser verificada será simplesmente ignorada pelos outros participantes.
Diferentemente de uma senha, isso não é algo que o sistema armazena. Não existe um arquivo de senhas, um sistema de recuperação ou uma forma de contornar. É apenas baseado em matemática. Se a assinatura for válida, o sistema a aceita como verdadeira. Caso contrário, ela é ignorada.
Criptografia depende fortemente de matemática grandes números. Aqui vai uma curiosidade para você: você sabia que, quando você embaralha um baralho de cartas, a ordem desse baralho quase certamente nunca existiu antes na história da humanidade?
Vamos conferir as contas. Se embaralhássemos um baralho a cada segundo, desde que os humanos pisaram na Terra (cerca de 300.000 anos atrás), teríamos: 300.000×365×24×60×60≈10¹³ combinações de baralhos na história.
Parece muito, não é? Mas o número de arranjos possíveis para um baralho de 52 cartas é:
52!≈8×10⁶⁷. É uma razão de 1/10⁵⁴!
Agora compare isso com o Bitcoin: uma chave privada é um número de 256 bits, o que significa que há cerca de 2²⁵⁶≈10⁷⁷ chaves privadas possíveis.
Para fins de comparação, os cientistas estimam que o universo observável contém cerca de 10⁷⁸ a 10⁸² átomos. Portanto, adivinhar a chave privada do Bitcoin de alguém é como escolher um átomo aleatório no universo e pedir a outra pessoa para encontrá-lo na primeira tentativa.
Criptografia é basicamente fazer cálculos e operações com esses números.
Chaves privadas são, na verdade, apenas números binários muito grandes. Elas podem ser geradas livremente e não há limite para a quantidade que você pode criar. Mas, como esses números não são algo que humanos possam digitar ou lembrar facilmente, podemos criar alguns esquemas de codificação inteligentes para eles. Um mêtodo simples é dividir o número da chave privada em pedaços e, em seguida, codificar cada pedaço em uma lista ordenada de palavras, cada palavra representando uma parte do número maior. Por exemplo, 0000 mapeia para abandon, 0001 para hability, ... até 2048, que mapeia para zoo. Isso é muito próximo de como uma “seed phrase” (também chamada de “recovery phrase”) funciona. O ponto-chave é que a “recovery phrase” é apenas uma tradução amigável da chave privada — portanto, ambas devem ser mantidas igualmente seguras.
Posso perder meus Bitcoins? O que acontece se eu esquecer minha senha?
Sim, você pode. O Bitcoin não funciona como uma conta bancária, onde você pode ligar para o atendimento ao cliente para redefinir sua senha, porque ninguém a armazena. Se você perder o acesso à sua chave privada (senha ou “seed phrase”), perderá o acesso aos seus Bitcoins. Eles ficarão parados nessa carteira, mas ela se tornará inutilizável; você não poderá fazer transações para movê-los. Na verdade, acredita-se que milhões de bitcoins sejam perdidos dessa forma. Se você decidir possuir criptomoedas, existem ferramentas úteis para manter sua senha segura, como backups, carteiras de hardware e outras. Saiba mais sobre elas.
E se minha chave privada (senha) for comprometida? Como posso alterá-la?
Quem possui a chave privada tem controle total sobre a carteira. Se alguém obtiver sua chave privada (ou sua “seed phrase”), poderá gastar todos os seus bitcoins e transferi-los para uma nova carteira, roubando-os de forma irreversível. Não é possível “alterar” uma chave privada. No entanto, você pode criar quantas carteiras quiser, e isso é gratuito. Se suspeitar que sua chave privada foi comprometida (alguém tem a chance de descobri-la) ou se quiser um novo endereço privado/público, você pode transferir seus bitcoins de uma carteira (a chave privada e a chave pública formam um par) para outra, com uma transferência normal.
Chaves são um design inteligente que também torna o Bitcoin muito prático. Na verdade, você não precisa estar nessa ligação telefônica gigante o tempo todo para ter Bitcoin. Você pode gerar uma chave privada (sua senha) e uma chave pública (sua conta) no seu computador, compartilhar sua conta com alguém que queira lhe pagar, e essa pessoa pode transferir Bitcoins para você mesmo que você não esteja “na ligação”.
O mesmo funciona para gastar Bitcoin: você pode criar a mensagem para sua transação (especificando o valor e o destinatário), assiná-la com sua chave privada e então entregá-la a qualquer pessoa que esteja na chamada para transmiti-la em seu nome.
Quando você usa um aplicativo de carteira, seja uma extensão de navegador ou um app de celularl, ele geralmente se conecta a um servidor que executa o cliente Bitcoin, que faz para você o trabalho pesado: monitorar seu saldo, listar suas transações anteriores e transmitir novas mensagens, para que você não precise executar o software Bitcoin completo.
A esta altura, você provavelmente já percebeu que a rede Bitcoin é essencialmente um conjunto de regras de comportamento, escritas na forma de código de computador. Todos concordam em seguir essas regras em consenso — e se alguém as transgride, suas ações são simplesmente ignoradas. Vamos continuar nossa analogia e explicar mais regras.
Redes e escalabilidade (fofoca)
Já resolvemos o primeiro problema da chamada telefônica gigante (personificação). Somos capazes de provar que uma transação é realmente nossa. Agora, vamos analisar o segundo problema: Volume (scale). Uma chamada com 5 ou 10 pessoas pode ser administrável, mas imagine uma chamada com milhares ou até milhões de participantes, todos gritando suas transações ao mesmo tempo.
Para funcionar globalmente, o Bitcoin não pode depender de todos conversando com todos ao mesmo tempo. Ele precisa de uma maneira de disseminar informações de forma eficiente. Em vez de forçar todos a participar de uma única chamada massiva, podemos criar uma rede em que cada jogador se conecta a apenas alguns outros jogadores — digamos, 8, 10 ou qualquer outro número. É importante ressaltar que suas conexões não são iguais às de todos os outros.
Você já ouviu o ditado que diz que “qualquer pessoa no planeta está conectada a qualquer outra pessoa por apenas seis graus de separação”? Por exemplo, eu sou seu amigo, você é amigo de alguém na Australia, e essa pessoa conhece a pessoa com quem estamos tentando nos comunicar. O mesmo princípio se aplica aqui.
No Bitcoin, sempre que você recebe uma nova transação de uma de suas conexões, você a repete para as outras conexões, pois eles podem não tê-la recebido ainda em uma conexão direta. Elas, por sua vez, repetem para as suas conexões, e assim por diante.
Esse estilo de comunicação é chamado de protocolo de gossip (fofoca, este é o termo técnico). É uma forma de comunicação de computadores ponto a ponto em que os nós compartilham continuamente o que ouviram com suas conexões. Apesar de parecer simples, o gossip é extremamente eficiente — e suficiente para garantir que informações (como novas transações) cheguem a todos na rede, geralmente em menos de um segundo.
Ordenação e consenso (blocos)
A solução acima cria outro problema. As pessoas ouviriam cada transação em momentos diferentes, e os registros (anotações no papel) ficariam rapidamente dessincronizados. Precisamos de uma maneira de organizar esse caos.
Para corrigir isso, introduzimos um papel especial: alguém será responsável por ouvir a rede e reunir todas as transações que ouvir em uma lista. A cada 10 minutos, essa pessoa anota uma lista de transações em um bloco e a transmite de volta para o grupo (usando o mesmo protocolo de gossip). Apenas nesse momento, todos os outros participantes atualizam seus registros com a mesma lista (bloco), mantendo toda a rede sincronizada em intervalos regulares. Essa função é chamada de produtor de blocos, e teremos muito mais a dizer sobre ela, mas vamos por partes.
Se a sua transação não entrar no bloco atual, talvez porque o produtor do bloco não a ouviu, o bloco já estava cheio ou o produtor do bloco decidiu ignorá-la, não se preocupe; sua transação ainda pode ser incluída no próximo bloco. O que você pode fazer, e a transação tem um lugar especial para isso, é adicionar uma gorjeta (também chamada de taxa) à sua transação. Ao anexar uma pequena quantia em bitcoin como recompensa ao produtor do bloco, é mais provável que ele inclua sua transação. Funcionará como um leilão; quanto maior a gorjeta, maior o incentivo para priorizá-la em relação às outras.
Por fim, os blocos não existem isoladamente. Cada bloco possui um cabeçalho, que contém uma referência (uma espécie de “link”) para o bloco anterior válido. Isso cria uma corrente contínua de blocos — a blockchain — que qualquer pessoa pode seguir para manter seus registros perfeitamente atualizados.
O que acontece se eu passar uma transação de 1 BTC para Alice e enviar o mesmo 1 BTC para Bob?
Algumas pessoas na rede podem ouvir a transação do Bob primeiro, enquanto outras ouvem a transação do Charlie primeiro. Mas se você não tiver saldo suficiente, apenas uma transação pode ser adicionada a um bloco. Quando um produtor de bloco reúne transações, ele inclui apenas uma delas, e a transação que entrar no bloco aceito se torna a “real”. A outra versão é ignorada como inválida, pois, uma vez que as moedas são gastas em uma transação, elas não podem ser gastas novamente.
O que acontece se o produtor do bloco incluir uma transação inválida no bloco?
Todos os outros participantes verificam todas as transações no bloco antes de aceitá-lo. Se encontrarem pelo menos uma transação inválida — digamos, gastar bitcoins que não existem ou com uma assinatura falsa— o bloco inteiro é rejeitado. Isso significa que o esforço/tabalho do produtor do bloco é desperdiçado e ele perde os incentivos para criar o bloco. Isso cria um forte incentivo para que os produtores de bloco incluam apenas transações válidas, pois tentar burlar o sistema lhes custaria dinheiro.
E se alguém tentar “trapacear” e vincular um bloco a algum bloco mais antigo no meio da cadeia?
Tecnicamente, eles podem — mas aqui vai outra regra de comportamento: a cadeia mais longa sempre tem prioridade. Isso significa que um bloco apontando para o meio quase certamente será ignorado, e o produtor do bloco perderia todas os incentivos dentro dele. Se um produtor de bloco tentar bifurcar logo antes do bloco mais recente, ou talvez o faça por engano (devido o gossip), então é essencialmente ocorre uma corrida entre os blocos: há cerca de 50% de chance de seu bloco ser ignorado e, portanto, 50% de chance de perder os incentivos, o que também é um mau negócio. Na prática, os produtores de bloco geralmente constroem em cima do bloco válido que ouvem primeiro. O motivo é simples: começar mais cedo lhes dá mais tempo para terminar seu bloco, o que reduz as chances de que ocorra uma bifurcação e desperdice seus incentivos.
Pessoas mal-intencionadas podem censurar ou atrasar transações por não repassá-las?
Eles podem tentar, mas não funciona muito bem. Você geralmente está conectado a 8 a 10 amigos, e essas conexões também têm suas próprias conexões. Se um de seus colegas se recusar a encaminhar sua transação, não importa — você ainda a enviará para seus outros colegas, e eles a repassarão para os deles. A fofoca se espalha como um boato no trabalho: mesmo que algumas pessoas fiquem caladas, a mensagem ainda se espalha.
O que impede alguém de enviar spam para a rede com transações ou até mesmo transações falsas?
Transações falsas são fáceis de detectar. Cada participante conhece os saldos de todos os outros, e assinaturas criptográficas não podem ser falsificadas. Se você tentar transmitir transações falsas, seus pares as identificarão rapidamente e poderão se desconectar de você, cortando sua capacidade de comunicação com a rede. Enviar spam com transações válidas é caro. Cada transação deve incluir uma taxa para ser priorizada em um bloco. Se você tentar inundar a rede com transações de baixa taxa, seus pares provavelmente as ignorarão — ou, em casos extremos, se desconectarão de você — tornando o spam em larga escala impraticável.
Escassez e incentivos (mineração)
Você deve ter notado que ser o produtor de blocos é um ótimo negócio — junte transações corretamente e você ganhará alguns bitcoins como recompensa. Naturalmente, todos querem essa função. Então, como decidimos quem será o produtor de blocos em cada rodada?
A solução do Bitcoin é uma espécie de sorteio baseada em um quebra-cabeça matemático. Quem o resolver primeiro ganha o direito de propor o próximo bloco. O quebra-cabeça se baseia em uma função criptográfica simples chamada “hashing”. Um hash é uma função unidirecional que recebe uma entrada (vamos chamá-la de X ) e produz uma saída ( Y ). Ela possui duas propriedades principais:
Dado X , é fácil calcular Y. Mas trabalhar de trás para frente — de Y a X — é impossível.
A saída Y sempre tem o mesmo tamanho (mesmo número de dígitos), não importa quão grande ou pequena seja a entrada X.
O quebra-cabeça funciona assim: encontre um X que produza um resultado Y com um certo número de zeros à esquerda. É só isso. Mas como resolver? Força bruta. Você tenta valores aleatórios de X continuamente, calcula seu hash e verifica a resposta: começa com zeros suficientes? Não? Tente de novo. Repetidamente até que, eventualmente, você tenha sorte.
As pessoas que tentam resolver esse quebra-cabeça são chamadas de mineradores, e o processo é chamado de mineração de Bitcoin (desculpe — sem picaretas ou pás envolvidas). Qualquer um pode ser um minerador: assim que escutar o último bloco válido, você coleta novas transações em um potencial bloco e, paralelamente, fica martelando o quebra-cabeça. Se encontrar um X vencedor , você o inclui no cabeçalho do bloco. Dessa forma, todos os outros podem verificar rapidamente seu trabalho, confirmar que você é o vencedor legítimo daquela rodada e que seu bloco é válido. O minerador não é uma autoridade no Bitcoin, nem decide o que é verdade. Ela apenas lhe dá a oportunidade de propor uma atualização no histórico de transferências, e mesmo assim, os registros são a verdade. Qualquer coisa que não siga as regras é ignorada.
Vamos abordar alguns dos problemas dessa abordagem. Primeiro, a resposta ( X ) para cada bloco precisa ser diferente de qualquer resposta anterior. Para resolvê-lo, o Bitcoin inclui a assinatura do bloco anterior como parte da entrada do quebra-cabeça, então você precisa começar de um ponto de partida diferente a cada vez. O segundo problema é que não queremos que os blocos apareçam muito rápido ou muito devagar. O Bitcoin tem como objetivo 10 minutos entre blocos. Como resolver o quebra-cabeça é uma questão de sorte, precisamos de uma maneira de ajustar o nível de dificuldade. O truque é simples: altere a quantidade de zeros à esquerda necessários.
Se os mineradores estiverem resolvendo o quebra-cabeça muito rápido, aumente o número de zeros necessários.
Se os blocos estiverem demorando muito, reduza os zeros.
O processo ainda é probabilístico — às vezes, um bloco é encontrado em 2 minutos, outras vezes em 20 —, mas com o tempo ele se equilibra na média. A cada 2016 blocos (cerca de duas semanas), a rede analisa o tempo médio que levou e ajusta a dificuldade de acordo.
Nos primórdios do Bitcoin, a mineração era algo que você podia fazer em um computador doméstico comum. Mas, como era lucrativa, rapidamente evoluiu para um negócio competitivo. As pessoas começaram a investir em máquinas mais potentes para calcular hashes mais rapidamente e, com o tempo, essa corrida levou à criação de computadores de hardware especializados (ASICs) construídos exclusivamente para mineração. Hoje, resolver o quebra-cabeça com um computador padrão é praticamente impossível — você precisa dessas máquinas personalizadas para ter alguma chance. À medida que a rede crescia, a economia em torno da mineração também mudou: o negócio agora opera com margens mínimas, onde o custo de eletricidade e hardware é equilibrado em relação às potenciais recompensas de vencer no quebra-cabeça.
O que acontece se dois mineiros resolverem o quebra-cabeça ao mesmo tempo?
Isso cria uma bifurcação temporária, com dois blocos na ponta da cadeia. Parte da rede ouve um bloco primeiro, enquanto outra parte ouve o outro. Por um curto período, as pessoas podem discordar sobre qual é o bloco “mais recente”. Aí, essencialmente é uma corrida: assim que outro minerador encontrar o próximo bloco, ele construirá sobre o que quiser. Essa cadeia se torna mais longa e a rede tem maior probabilidade de segui-la. O bloco “perdedor” é descartado e suas transações precisam ser incluídas em blocos futuros.
A esta altura, você provavelmente está morrendo de curiosidade para saber: quem recebeu os primeiros bitcoins? A resposta está diretamente ligada à forma como os blocos são criados. Para tornar a produção de blocos vantajosa, os mineradores recebem uma recompensa adicional além das taxas de transação: o direito de criar novos bitcoins do nada. Cada vez que um minerador produz um bloco com sucesso, ele pode incluir uma transação especial (chamada de transação Coinbase) que atribui uma certa quantidade de bitcoins novos a qualquer endereço de carteira que escolher — geralmente o seu próprio. É assim que os novos bitcoins entram em circulação.
No início, a recompensa era de 50 bitcoins por bloco, o que significava que, aproximadamente a cada 10 minutos, 50 novos bitcoins eram criados. Com o tempo, porém, essa recompensa não permanece a mesma. Uma das regras do Bitcoin determina que a cada 210.000 blocos (aproximadamente a cada 4 anos), a recompensa por bloco é reduzida pela metade. Esse evento programado é chamado de halving. Portanto, 50 bitcoins (2009), 25 (2012), 12,5 (2016), 6,25 (2020), 3,125 bitcoins (2024) e assim por diante, reduzindo pela metade a cada 4 anos até que, por volta do ano 2140, nenhum novo bitcoin será criado. Se somarmos todos esses valores, em 2140, o fornecimento total terá atingido o limite de 21 milhões de bitcoins — um limite previsto nas regras do sistema. Satoshi minerou os primeiros blocos e, mais tarde, outras pessoas se juntaram à rede e começaram a minerar também.
E se alguém tentar “trapacear” vinculando um bloco a um bloco mais antigo na cadeia e depois tentar torná-lo o mais longo?
Isso é chamado de hardfork. Se você quiser que sua bifurcação seja bem-sucedida, terá que superar os mineradores honestos e tornar sua cadeia mais longa que a deles. Como milhares de mineradores ao redor do mundo já estão competindo, a única maneira de fazer isso é controlar mais poder computacional do que o restante da rede combinada. Isso é conhecido como ataque de 51%: se você tiver muito poder de mineração, poderá, em teoria, construir uma cadeia mais longa e forçar a rede a aceitá-la. Na prática, porém, obter tanto poder é caro; você estaria queimando milhões de dólares em eletricidade. Ao tornar a produção de blocos cara (em eletricidade e hardware), o Bitcoin garante que quem quiser trapacear precise gastar recursos reais para fazê-lo. Ao mesmo tempo, você estaria destruindo a confiança no próprio sistema com no qual está tentando lucrar.
Resolução de conflitos e a camada social (forks, ataques)
Até agora, descrevemos as regras técnicas. Resta a camada humana: quem decide quais são essas regras. No fim das contas, as regras do Bitcoin existem porque as pessoas concordam em segui-las. O software é simplesmente a expressão técnica desse acordo (coisas como tamanho do bloco, ajustes de dificuldade ou halving). Ainda assim, são os humanos que escolhem qual software executar, quais atualizações aceitar e, em última análise, o que tem valor.
De tempos em tempos, novos recursos ou mudanças são propostos, podendo estes serem qualquer coisa, como a quantidade de casas decimais de um bitcoin, mas eles só se tornam parte do Bitcoin se a comunidade os adotar. Se todos concordarem, a mudança se torna parte do Bitcoin. Se muito poucos concordarem, a proposta simplesmente desaparece como uma bifurcação irrelevante. Pode também ocorrer uma bifurcação real, a blockchain se divide em duas redes, com duas criptomoedas diferentes, que avançam a partir desse momento. Nesse ponto, cabe aos usuários decidir qual delas desejam apoiar e qual o seu valor. Não existe uma versão oficial escolhida por votação ou autoridade. Os participantes devem atribuir um valor diferente a cada lado da bifurcação.
Se há uma única ideia a reter deste artigo, é esta: o Bitcoin existe porque uma crença antiga se mostrou equivocada, a de que as pessoas precisam de intermediários para coordenar valor e realizar transações. O Bitcoin não é protegido por instituições, promessas ou lastro físico. Ele é protegido por um acordo simples, imposto por código: os registros são a verdade, e tudo o que não segue suas regras é ignorado. Uma vez compreendido esse mecanismo, todo o resto — chaves, blocos, mineração, bifurcações e até mesmo governança — se encaixa. O Bitcoin deixa de ser misterioso e passa a se parecer com o que realmente é: um sistema de coordenação onde o consenso substitui a autoridade.


